A Louça Brasonada


Apresentando brasões ou armas-de-família, monogramas coroados ou não, algumas com belíssimas composições de flores e frutos, as louças brasonadas estiveram presentes nas mesas de nossos titulares, nobres fazendeiros, militares e membros da corte. Dentro de cada peça desses serviços, testemunha de festas alegres e acontecimentos importantes, existe um pedaço de nossa história, presa aos brasões e iniciais coloridas, que vale a pena conhecer.

Em todos os exemplares dessa louça existe, segundo Victorino Chermont de Miranda, "a mesma sensibilidade para o valor estético e histórico que, mais do que qualquer outro sinal exterior de decoro social vale como um testemunho da vida elegante do Brasil de ontem". Classificada como louça histórica, louça brasonada, louça da aristocracia, significa que pertenceu a condes, barões, viscondes, marqueses e fidalgos de cota d'armas, por oposição à chamada louça real, imperial ou bragantina, restrita aos Paços e seus habitantes.

Uma classificação mais apurada, de acordo com os detentores dos serviços, divide a louça brasonada em três segmentos:

1. a louça dos vice-reis do Brasil e dos titulares e fidalgos portugueses que aqui serviram;
2. a louça dos titulares brasileiros (marqueses, barões, etc., com ou sem honra de grandeza e
3. a louça de cota d'armas e as dos cidadãos brasileiros ou portugueses, que receberam títulos nobiliárquicos do Rei de Portugal, e os usaram no Brasil, assim como dos condes romanos e dos eclesiásticos em geral.

Outra classificação feita a partir do padrão de decoração, determina quatro categorias:

1. louça propriamente brasonada, com brasões de armas dos titulares;
2. louça coroada, que apresenta uma coroa ou símbolo sobre as iniciais ou título do proprietário;
3. louça monogramada, que possui, como o nome diz, as iniciais de seu titular e raramente as de seu título, e
4. a louça muda, não personalizada, mas comprovadamente atribuída a algumas das pessoas já mencionadas.

O gosto da louça brasonada remonta à transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808, quando foi apurado o modo simples de viver da Colônia, ajustando-o aos hábitos fidalgos da metrópole. Geralmente de origem francesa, essas porcelanas também eram encomendadas em outros países, como por exemplo, a que pertenceu ao Marquês de Abrantes, que veio da fábrica alemã de Saxe; o serviço do Barão de Penedo, que foi feito na tradicional fábrica inglesa de Coppeland & Garret e algumas vieram da China, as conhecidas "Companhia das Índias", como são os serviços do Barão de Nova Friburgo, do Visconde de Itamarati, etc.

Em todo o Brasil são conhecidos 226 serviços personalizados. A seguir, uma relação de louças brasonadas com as informações sobre seus primeiros donos ou titulares.

Visconde de Meriti

    
Visconde de Meriti, peça da
Snob Antiguidades
 

Manoel Lopes Pereira Bahia, filho de Domingos Lopes Pereira Bahia e D. Ana Margarida da Silva, foi casado em primeiras núpcias com Dona Maria Margarida da Rocha, filha do primeiro Barão de Itamarati. Foi agraciado com o título de Barão em 23 de dezembro 1853. Barão com honras de grandeza de Meriti em 2 de dezembro de 1854 e finalmente Visconde em 2 de dezembro de 1958. Sua louça, uma das mais belas, apresenta-se em dois serviços que variam apenas no colorido. O primeiro possui uma borda preta com pequenas decorações em ouro, onde, dentro de reservas, estão flores pintadas à mão e composições com frutas e ainda as iniciais P.B. (Pereira Bahia).

Esse titular possuiu outro serviço idêntico variando apenas o colorido da borda que era rosa e a sua decoração central que era flores. Essa porcelana sempre esteve presente nos tradicionais bailes que os Pereira Bahia ofereciam a Suas Majestades, os Imperadores do Brasil, no dia 15 de agosto, após as cerimônias religiosas realizadas na Capela Imperial de Nossa Senhora da Glória do Outeiro.
O palacete Bahia ficava situado no local do atual Palácio São Joaquim, na Rua do Catete. Durante vários anos essa louça foi atribuída a D. Pedro I, pois entenderam que as iniciais P.B. significavam "Príncipe do Brasil". Com o desaparecimento de uma das herdeiras do titular, esta louça foi localizada e a atribuição desfeita. A porcelana não possui marca de fabricação.

Barão de Paty de Alferes

Francisco Peixoto de Lacerda Werneck foi agraciado com o título de Barão em 15 de dezembro de 1832 e Barão com Grandeza em 2 de julho de 1853. Nasceu na Fazenda da Piedade em 6 de fevereiro de 1795 e faleceu na Freguesia de Paty de Alferes em 22 de novembro de 1861. A louça do Barão de Paty de Alferes têm as seguintes característica: uma faixa azul-ferrête na borda, frisada de ouro; na chamada quebra do prato, outro filete dourado e ao centro, encimadas por uma coroa de Visconde, vemos pendentes de uma fita entrelaçada as Ordens de Cristo e a Imperial Ordem da Rosa. Em função das duas comendas, este serviço é conhecido como "serviço das comendinhas".

Visconde de Itamarati

Francisco José da Rocha, nasceu em Miragaia, Portugal, em 1806 e faleceu no Rio, em 1883. Coronel-Comandante da Guarda Nacional e negociante da Corte. Cada peça do seu serviço, Cia das Índias, apresenta uma decoração central diferente, sendo dos mais ricos que se conhece. Entre pássaros e borboletas, vemos ao centro suas iniciais F.J.R. A borda, em ouro intenso, dá-lhe um aspecto suntuoso. Este titular possuiu outro serviço levado por sua esposa, Maria Roma Bernardes, por seu casamento. Este pertencia a seu pai, Pedro José Bernardes, que se apresenta não só com suas iniciais P.J.B., como com paisagens chinesas pintadas em azul, verde e amarelo onde vemos montanhas sagradas da China e, na borda, cenas do folclore chinês.

Visconde de Ouro Preto

Afonso Celso de Assis Figueiredo, Conselheiro de Estado e Senador do Império, foi agraciado com o título de Visconde com as honras de grandeza em 13 de julho de 1888. Nasceu em 1837 e faleceu em 1912. Sua louça é porcelana Limoges, J.P., L. encomendada através de seu depósito J. Klotz. Rue de Paradis, 22, France. Porcelana branca, com frisos e rendilhados de ouro e monograma O.P. encimado pela coroa de Visconde.

Marquês de Itu

    
Marquês de Itu, de Onze Dinheiros
Escritório de Arte
 

Antônio de Aguiar Barros, Visconde de Itu por decreto de 19 de setembro de 1880. Recebera o título de Conde em 7 de março de 1885 e Marquês em 7 de maio de 1887. Filho dos Barões de Itu, nasceu em Itu - São Paulo, em 1823 e faleceu na mesma cidade em 1889. Agricultor e capitalista, foi casado com Antonia de Aguiar Barros, filha dos primeiros Barões de Piracicaba e chegou a ser Vice-presidente da província de São Paulo. Sua louça é porcelana de Vierzon, da manufatura de Hache e Jullien, pasta dura do século XIX, marca nº 68. A borda em creme com extremidade delineada por friso dourado circundando renda em azul e douração fosca. Abaixo, renda dourada e entre a borda e o centro, filete e renda dourada. Ao centro, monograma MY entrelaçado sob coroa de marquês em dourado e azul.

Barão de São Fidelis

    
Barão de São Fidelis, Sérgio Ferreira
e Wagner Campos Antiquários
 

Capitão Antônio Joaquim da Silva Pinto, filho de Manuel Joaquim da Silva e de Dona Luíza Maria de Mello, nasceu em Campos, Estado do Rio, em 13 de fevereiro de 1826, onde foi importante agricultor. Morreu também em Campos, a 21 de setembro de 1884. Foi Comendador da Imperial Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo de Portugal. Sua louça é de porcelana francesa. O prato possui uma borda rendilhada de ouro e uma barra em azul-pompadour, ao centro, o brasão de armas, encimado pela coroa de Barão. Dentro de reservas de fundo rosa, flores e pássaros pintados a mão. Paquifes ornamentais guarnecem o brasão.

Barão de Avelar e Almeida

Laurindo de Avelar e Almeida era um rico fazendeiro de café na província do Rio de Janeiro. Nasceu em 5 de dezembro de 1849 e faleceu em 25 de novembro de 1902. Foi agraciado com o título de Barão em 28 de julho de 1877. Sua porcelana é francesa com a marca H.C. (Limoges) que aparece no fundo das peças. A decoração é inspirada no gosto japonês, apresentando o monograma de seu titular A.A. encimada por uma coroa de Barão.

Visconde do Rio Branco

José Maria da Silva Paranhos foi agraciado com o título em 20 de outubro de 1870. Foi Conselheiro do Estado Extraordinário e pai do Barão do Rio Branco. De sua louça, deixou dois serviços: o conhecido como "Lei do Ventre Livre", que ostenta na borda do prato uma faixa verde e o monograma R. B., encimado pela coroa de Visconde, terminada por um listel com a inscrição "28 de Setembro de 1871". Porcelana francesa Pillivuyt, de 1872. O outro serviço tem as iniciais R.B. encimadas por uma coroa de Conde e possui uma borda verde com frisos em ouro. É também da França, fabricado na Haviland & Cia. - Limoges.

Barão de Nova Friburgo

Antônio Clemente Pinto era português de nascimento mas com título brasileiro, e foi pai do Conde São Clemente e do segundo Barão de Nova Friburgo. Construtor do atual Palácio do Catete, ali fazia sua morada quando estava no Rio. Sua louça Cia. das Índias com borda em esmalte verde e azul tem reservas com pinturas em sépia, num círculo dourado com as iniciais A.C.P.

Barão da Fonseca

João Figueiredo Pereira de Barros. Seu serviço, Cia. das Índias, possui características que lembram a porcelana inglesa de Derby. Sua decoração obedece aos rigores do século XVIII, tendo ao centro, dentro de um círculo, as iniciais do titular J.F.P.B.

Visconde de Pelotas

José Antônio Correia da Câmara. Brigadeiro, prestou relevantes serviços na Guerra do Paraguai. Recebeu o título de Visconde, com honras de grandeza em 17 de março de 1870. Sua porcelana não tem marca, apresentando na borda decorações em verde-escuro e ouro, encimando o prato um P, coroado com coroa de visconde.

Barão de Tefé

Antonio Luís Von Hoonholtz, foi oficial da marinha. Agraciado com o título de Barão em 11 de junho de 1873, e Barão com grandeza em 10 de março de 1883. Faleceu em 6 de fevereiro de 1921. Os Barões de Tefé foram os pais da senhora Nair de Tefé, que casou com o Marechal Hermes da Fonseca, então Presidente da República. Sua louça apresenta no prato, uma borda azul-escuro, frisada a ouro, tendo à esquerda as letras BT entrelaçadas, coroadas com a coroa de barão. Trata-se de uma porcelana francesa proveniente de "Grand Depot de Porcelaines & Faïences", 21, Rue Drouot, Paris - Succursale 33, Rue Saint-Ferreol, Marseille.

Barão de Santa Helena

    
Barão de Santa Helena, de Sérgio
Ferreira e Wagner Campos
 

Tenente-Coronel José Joaquim Monteiro da Silva foi agraciado com o título de Barão em 13 de dezembro de 1867. Casado em primeiras núpcias com Dona Francisca Monteiro de Barros e em segunda com D. Maria Teresa Monteiro de Castro. Sua porcelana foi feita na França pela Havilland $ Cie, sendo branca, guarnecida de um ramo de rosas na borda, pegando o centro, frisos azuis guarnecem a louça, dando-lhe realce aos relevos.

Barão de Sorocaba

Boaventura Delfim Pereira foi casado com a irmã da Marquesa de Santos. Seu serviço Cia. da Índias possui uma reserva onde constam as iniciais B.D.P., tendo na borda folhas e cachos de uva em verde e roxo.

Conde do Pinhal

Antônio Carlos de Arruda Botelho foi agraciado com o título de Barão em 19 de julho de 1879, com o de Visconde em 5 de maio de 1883, Visconde com grandeza em 28 de fevereiro de 1885 e Conde do Pinhal em 7 de julho de 1887. Era fazendeiro de café no Estado de São Paulo. Nasceu em 1827 e faleceu em 1901. Sua porcelana era francesa sem marca. Apresenta uma faixa vermelha na borda onde se vê grãos de café abotoado. Na borda do prato as iniciais C.P. entrelaçadas, encimadas por uma coroa de Conde.

Conde de São Clemente

Antônio Clemente Pinto nasceu em 1830 e faleceu em 1898. Agraciado com o título de Barão em 3 de julho de 1863, Visconde em 11 de abril de 1888 e Conde, por decreto de 1888. Sua louça é porcelana francesa com borda azul e ouro, ao centro o seu brasão de armas guarnecido com paquifes decorativos encimados de coroa. No verso do prato está escrito "Manufacture de Porcelaine J. Gauvain, Rue de D'Hauteville, 59, Paris".

Conde de São Mamede

Rodrigo Pereira Felício nasceu em Portugal em 1820 e faleceu no Rio de Janeiro em 1872. Foi comerciante e um dos fundadores do "Brazilian and Portuguese Banck, Limited". Visconde de São Mamede, por Portugal, decreto de 12 de setembro de 1866 e Conde por decreto de 2 de março de 1869. Sua porcelana (Veja foto na capa) é européia, pasta dura, sem marca, com os dizeres "Lausanne Suisse" referente à vista pintada no centro do prato. Na borda com folhas douradas o seu brasão.

Barão de Jequiá

    
Barão de Jequiá,
peça da Snob Antiguidades
 

Manuel Duarte Ferreira Ferro foi agraciado com o título de Barão com grandeza em 14 de março de 1860. Sua louça era de porcelana francesa, com borda verde e friso de ouro, guarnecida com flores pintadas a mão e encimando o prato, dentro de uma reserva em branco, a inscrição: B. de Jequiá, coroada. No verso do prato: Ch. Pilliyuyt (1867).

Barão de São José D'El Rey

Gabriel Antônio de Barros, Barão por decreto de 7 de fevereiro de 1885, nasceu em Minas Gerais em 1826 e morreu em São José do Rio Preto em 1909. Agricultor e negociante da província de Minas Gerais, era filho de Antônio Barnardino de Barros. Seu serviço de porcelana francesa apresenta a marca de Jullien Fils Ainé. Borda com faixa verde jade ladeada por doisfrisos de tonalidade mais acentuada. Na borda, ainda, monograma "GAB" entrelaçado em verde.

Visconde de São Lourenço

    
Visconde de São Lourenço, de Onze
Dinheiros Esc. de Arte
 

Francisco Gonçalves Martins, Barão com grandeza por decreto de 14 de março de 1860 e Visconde em 15 de novembro de 1871. Nasceu em Santo Amaro -Bahia, em 1807 e faleceu no mesmo estado em 1872. Era filho do coronel Raimundo Gonçalves Martins e de Maria Joaquina do Amor Divino e foi casado com Maria da Conceição Peçanha. Foram pais da Viscondessa do Passe.
O Visconde, Bacharel em direito pela faculdade de Coimbra, foi chefe de polícia, deputado, senador e Presidente da província da Bahia. Foi também Desembargador e Ministro do Supremo Tribunal de Justiça. Seu serviço é de porcelana de Paris, pasta dura do século XIX, da manufatura dos irmãos Honoré, no Boulevard Poissonniere. O prato possui uma borda rendilhada de ouro composição de flores. Separando a borda do centro um círculo rendilhado de ouro entremeado de pérolas e no centro o monograma coroado.

Aos colecionadores de louça histórica: Durante a exposição da Dutra Leilões, em São Paulo, ocorrida em junho de 2002, colecionadores e interessados se reuniram e criaram a Sociedade Brasileira de Colecionadores de Louça Histórica (SBCLH). Sem fins lucrativos, a entidade tem como objetivo divulgar informações através de publicações, cursos, exposições e reuniões para troca de experiências entre os colecionadores, além de assessoria na identificação de peças. A louça histórica inclui diversos temas, como: Imperiais, Titulares do Império, Famílias, Eclesiásticos, Oficiais, Iconográficos e curiosos. Contatos: Av. Brasil, 649 - Jd Paulista - SP - SP; tel. (11) 3887-3234.

Fonte: Antiguidades Brasileiras, de Paulo Affonso de Carvalho Machado, Louça Histórica, do Museu de Arte de Bahia e A Coleção de Louça Brasonada, da Academia de Letras, por meio de [fonte >>].
legenda: para conhecer as convenções adotadas neste site para datação e identificação de marcas, e do tipo de produto de cada fábrica, consulte esta página, ou posicione o apontador do mouse sobre as letras dentro dos círculos ou quadrados, que a explicação aparecerá.

ATENÇÃO: Este site é o resultado de uma pesquisa pessoal sobre a história da indústria de louça no Brasil, não sou fabricante nem comerciante de porcelana, não tenho ligação ou contatos com nenhuma das marcas apresentadas, ou com qualquer outra indústria cerâmica. Este site tem por objetivo auxiliar na identificação de peças de louça brasileira. Entretanto, é importante observar que as informações aqui presentes, embora resultado de uma exaustiva e extensiva pesquisa de mais de quatro anos, devem ser usadas com responsabilidade e cuidado, uma vez que nem mesmo os fabricantes tiveram a preocupação em manter um registro histórico das marcas e padrões de decoração por eles usados. O autor não assume qualquer responsabilidade por eventuais danos, perdas ou prejuízos a pessoas, empresas ou bens, originados no uso deste site.

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