A evolução da indústria cerâmica no Brasil

[fonte: PILEGGI, Aristides. Cerâmica no Brasil e no Mundo, ed. Martins Fontes, São Paulo, 1958]

A evolução da verdadeira indústria cerâmica no Brasil só começou a se delinear com os primeiros marcos da colonização européia, em fins do século XIX. Antes, os processos utilizados unicamente na confecção de alguns utensílios de uso doméstico, entre os quais se incluíam panelas, potes e vasos de barro, eram elementares.

Trabalho de artesão, a cerâmica tomou-se necessidade essencial para a vida moderna, tendo, por isso, sido determinada sua industrialização.

A propósito das primeiras manifestações em torno da cerâmica de louça de uso doméstico, no Brasil, assim se pronunciou o Prof. F. S. Vicente de Azevedo, então presidente do Sindicato Patronal e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, ao inaugurar a exposição de cerâmica que se realizou na capital paulista em julho de 1951: "Porque é arte, não admira que a cerâmica tenha sido trazida para São Paulo por filhos de um povo em que a vocação artística é uma herança secular. Foi um italiano, com efeito, que levantou nesta cidade, por volta de 1913, a nossa primeira fábrica de louças. A esse precursor, Romeu Ranzini, a quem se associaram alguns brasileiros de iniciativa, deve-se a fundação da Fábrica de Louças Santa Catarina, que vingou, prosperando rapidamente. Italianos eram também outros mestres ceramistas daquela época: José Zappi, José Pedotti, Francisco Spertini, Angelo Torrighelli, Luiz Torrighelli, Pascoal Rimazza, José Rossetti, Guido Monteggia, Luiz Binotto, Júlio Gardana e Fioravanti De Ambrosi. A essa plêiade podemos adicionar o nome de Eugênio Bonádio, que fundou em São José dos Campos uma cerâmica artística e de louça de mesa. Todos êles nos trouxeram a sua inestimável contribuição de técnicos e de artistas à bela realidade que é hoje a nossa indústria de louça. Já então fazia quase 20 anos que em nosso meio havia sido erguida a primeira grande cerâmica de materiais de construção. Outras depois de 1893 se foram fundando, e, em 1912 começava a funcionar aquela que Roberto Simonsen, anos mais tarde, iria transformar na maior empresa do gênero da América do Sul."

Efetivamente, a primeira fábrica a produzir industrialmente a louça de pó de pedra no país, foi aquela inaugurada em 1913, no bairro de Água Branca, em São Paulo, sob a razão social de Fagundes & Ranzini, da qual faziam parte Romeu Ranzini, Euclides Fagundes e Waldomiro Fagundes. A firma contratou na Itália, em 1912, por intermédio do Consulado Brasileiro de Milão, o então conceituado técnico ceramista José Zappi, indicado pela Cooperativa Ceramica di Imola, de que fora presidente. Uma vez findo seu contrato de três anos, José Zappi permaneceu no Brasil emprestando seus amplos conhecimentos de ceramista a outras firmas que se fundaram em seguida no Estado de São Paulo: na Capital, São Caetano do Sul e Pedreira. Mais tarde, em abril de 1921, organizava sua própria empresa, e a ela se dedicou de tal forma, que posteriormente viu florescerem seus ideais, pois a firma que ainda hoje conserva seu nome, alcançava Grandes Prêmios e Medalhas de Ouro nas Exposições Internacionais de Londres, em 1935, de Bruxelas em 1937, de Pistoia em 1938, e de Paris em 1939.

Pedreira, Mauá, antiga Pilar, Jundiaí e São José dos Campos foram também outros centros onde se começou a produzir louça de mesa.

Durante a primeira guerra, de 1914 a 1918, a Fábrica de Louças Santa Catarina, principalmente, atendeu em grande parte às necessidades de nosso mercado interno. Quando terminou a conflagração mundial, aumentou a procura dos produtos de procedência estrangeira, a tal ponto, que os comerciantes cariocas promoveram a ida de encaixotadores para a Inglaterra, com a finalidade de suprir, naquela época, as naturais deficiências de mão-de-obra britânica, e assim acelerar remessas dos artigos de louça para o Brasil.

A vinda de técnicos e operários italianos especializado, possibilitou a formação de algumas dezenas de outros operários que, da Capital de São Paulo, se irradiaram para numerosas cidades do interior do estado, onde foram lançadas as sementes das principais fábricas que atualmente conhecemos.

Um dos fatôres primordiais da razão de ser da prosperidade desta indústria no Estado bandeirante, é a existência, nas proximidades da Capital, dos quatro elementos básicos imprescindíveis à fabricação de seus artigos: caulim, argila, feldspato e quartzo.

Nos primeiros dias, nossa indústria necessitou importar algumas matérias-primas, como, por exemplo, argilas plásticas da Holanda, e carbonato de magnésia, da Grécia. No entanto, poucos anos depois, foram descobertos depósitos de argila de boa qualidade, bem como jazidas de caulim em São Caetano do Sul e Santo Amaro, e feldspato em Perus, este muito semelhante ao afamado pegmatito inglês: "cornish stone".

A primeira indústria a produzir em nosso país a porcelana para revestimento de paredes, pisos e materiais eletrocerâmicos, foi a Cia. Cerâmica Brasileira do Rio de Janeiro, fundada por Américo Ludolf, em 1910, e que sucedeu à Cia. de Grés e Faiança Nacional, constituída em 1907, e que deu início à fabricação de ladrilhos de grés. Em 1912, começou a produção de pastilhas e, em 1915, a de isoladores. O setor técnico esteve inicialmente a cargo do ceramista francês Francisco Quer.

Em 1922, também no Rio de Janeiro, inaugurou-se a Manufatura Nacional de Porcelanas, de propriedade do Visconde de Morais, onde hoje funciona a fábrica de azulejos da firma Klabin Irmãos & Cia., que a adquiriu em 1931. Sua produção inicial foi de azulejos e, em pequena escala, louça de pó de pedra, e a parte técnica sob a direção do ceramista português Eduardo Ferreira. Um ano depois começou a fabricar também isoladores de porcelana e outros artigos eletrotécnicos, tendo à frente o Dr. Joaquim de Carvalho, fundador e técnico da Cia. Eletro-Cerâmica de Vila Nova de Gaia, Porto, e o ceramista francês Dr. Hartmann. Em 1929, a Manufatura Nacional de Porcelanas dava início a uma nova seção: a de porcelana de mesa. Dois ceramistas portugueses foram também os indicados para dirigir este novo setor da produção - Manuel Miller e Virgílio Teixeira, da Fábrica de Porcelana de Vista Alegre, coadjuvados pelo ceramista francês Mr. Guy.

Todavia, a primeira fábrica no Brasil a produzir porcelana reforçada para uso de hotéis e restaurantes - foi a Porcelana Pedro II, no Rio de Janeiro, no ano de 1928. Foi seu fundador Tinoco Machado, e na direção técnica encontravam-se Alberto Antunes dos Santos, de Coimbra, e como auxiliares, Álvaro da Rocha e Virgílio Teixeira, ambos da fábrica de Vista Alegre.

No Estado de São Paulo o primeiro passo para a industrialização da porcelana prende-se também ao fabrico de isoladores, pela firma Teperman, Kirchner & Cia Ltd, fundada em 1928, na Capital, sob a direção técnica de Afoldo Kirchner. Continua em atividade até hoje com o nome de Tecnocerâmica S/A. Em 1934, constituiu-se a Indústria Paulista de Porcelanas Argilex S/A, por iniciativa de José C. de Cerqueira Leite, que já se dedicava ao ramo anteriormente, dando assim início à produção de pastilhas para pisos e revestimentos de fachadas, além de isoladores. No setor técnico, prestaram sua colaboração os ceramistas Alberto Antunes dos Santos e Virgílio Teixeira, que trabalhavam em empresas congêneres do Rio de Janeiro.

Em 1931, em Moji das Cruzes, por iniciativa dos irmãos Pavan, organizou-se uma pequena fábrica de porcelana de mesa, cuja produção inicial se restringia exclusivamente a xícaras de café, sem pires.

Pouco tempo depois, isto é, em 1933, por iniciativa de Hans Lorenz, e também de A. F. Staudacher, Eugen Heim e Sra. Hedwig Lorenz, foi instalada em Mauá uma modesta fábrica destinada a produção de artigos de porcelana para laboratórios e farmácias, que se transformou, mais tarde, em 1937, na atual Porcelana Mauá S/A. A produção daqueles artigos foi intensificada, iniciando-se ao mesmo tempo, a fabricação da porcelana reforçada para hotéis e restaurantes e da porcelana fina para uso doméstico, principalmente aparelhos para chá e café, sobressaindo-se a denominada "porcelana canelada", em virtude da forma característica de suas peças.

(...)

Tentativas isoladas de fabrico de louça e porcelana, parecem ter sido feitas anteriormente em algumas cidades brasileiras, principalmente nos Estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais, nunca, porém, alcançando a fase da industrialização desejada, possivelmente por falta de recursos técnicos e financeiros.

Como até hoje, praticamente, as nossas primeiras fábricas cerâmicas viram-se obrigadas a incluir em sua atividade manufatureira a escolha, preparo e seleção das matérias-primas de que careciam, por não existir no país empresas especializadas em tal gênero de exploração e beneficiamento de substâncias minerais.

É preciso salientar que as fábricas mencionadas - pioneiras da industrialização cerâmica do Brasil - foram igualmente as pioneiras desse ramo manufatureiro na América do Sul.
(...)

obs.: a ortografia e os nomes estrangeiros traduzidos foram mantidos como no livro original.

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