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F
ritz Schneider

fonte: Joel Gehlen, site A Notícia, Santa Catarina, 20/02/1999
http://www1.an.com.br/1999/fev/20/0ane.htm
consultado 10/05/2007

O sorriso é franco, em largo gesto, como se sorrisse com o corpo inteiro, com os braços abertos e até com a própria extensão da bengala estendida em sua mão. Não se trata de um instrumento de amparo, mas é o acessório na composição de seu personagem. As mãos glabras, finas, mãos de artista. Ao ver suas mãos, lembramo-nos imediatamente de tudo que ele pintou.

Fritz Schneider nasceu 29 dias antes do final do século XIX, a 2 de dezembro de 1900, na cidade de Munique, na Alemanha. Sua vida é como uma ponte com um lado perdido nas brumas do passado e a outra cravada no século 21. Entre um extremo e outro, 98 anos de uma história que as mãos buscaram apreender em imagens. Tudo nele envelheceu, menos os olhos da cor do mar, azuis como as distâncias que percorreu.

Fritz tinha 14 anos quando a Primeira Guerra começou. Durante o período da guerra, Fritz empunhou pincéis, estudou pintura na Real Manufatura de Porcelana, de Nymphemburg. Depois freqüentou por dois anos o Liceu de Artes e Ofícios de Munique.

A arte foi seu dom desde menino, mas seus pais, donos de uma taverna e experimentados nos duros anos da guerra, optaram por fazer do rapaz um mestre açougueiro. Embora aprendesse a talhar vitelas com dedicação, sua felicidade estava em desenhar nas horas vagas. Não demorou muito para chamar a atenção de seu professor, que um dia devolveu o aprendiz ao pai com a recomendação de que o matriculasse na escola de arte, pois esta era sua aptidão. E assim foi.

Em 1920 Fritz era jovem, solteiro, tinha uma profissão e o espírito aventureiro. Ele mais um amigo planejavam fazer uma grande viagem para descobrir o Brasil, país do qual tinham apenas uma vaga idéia por fotografias e fabulosos relatos da propaganda de imigração. Como os antigos viajantes, o jovem Fritz tomou um velho navio no porto de Munique e, depois de um mês de mar, o vapor chegou ao porto do Rio de Janeiro. O Pão de Açúcar foi sua primeira visão do paraíso tropical. A segunda escala foi no porto de Santos. Mas seu destino era Paranaguá, no Paraná, onde chegou numa tarde do outono de 1921.

Os primeiros meses não foram fáceis. Conseguiu trabalho numa fábrica de louças em Colombo, cidade próxima a Curitiba. Pintava louças. Mudou-se para Blumenau, onde morou por dois anos, trabalhando na confecção de litografias. De Blumenau foi a São Paulo. Lá conheceu Irmgard, uma alemã blumenauense. Casaram-se. Fritz trabalhou como decorador de interiores, desenhando e projetando móveis na famosa Casa Alemã, que mais tarde se transformaria na Galeria Paulista.

Nos 20 anos seguintes pintou e projetou louças para duas fábricas famosas, a Matarazzo e a Zappi. Produziu obras de arte em louça que ganharam fama, freqüentaram salões, exposições e foram abrigadas por museus, inclusive o do Catete, no Rio de Janeiro. Em 1975, Fritz e Irmgard fixaram residência em Joinville.

Há dois predicados para bem exercer a arte da pintura em porcelana: a mão firme, para garantir a precisão no traço, e olhos de águia, olhos de lince, capazes de "pintar no escuro". A dificuldade das minúcias, o pincel finíssimo, a impossibilidade de retoques, tudo tem que ser de primeira. Neste tipo de pintura as cores têm de ser adivinhadas. A tinta é composta por um óxido que queima depois de espalhada sobre a superfície da louça, e, nesse processo, muda de cor. Então, o pintor tem que ter uma paleta na memória, capaz de antecipar na imaginação o resultado final do que vai compor com pincel e tinta.

Mas é um trabalho que exige grande esforço das vistas. Por isso, depois de duas décadas, Fritz mudou o substrato de sua arte. Já morando em Joinville, Fritz passou a pintar com óleo sobre tela. Transferiu para a nova técnica as minúcias de xícaras, vasos e ânforas, com sua riqueza de detalhes, e a perfeição que só uma mão obcecada pode atingir.

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