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Nem tudo que vem de lá é "Porcellana Mauá"

por Fábio Carvalho
maio/2006


Não é de hoje que observo uma coisa curiosa em sites de leilão, feiras e até mesmo lojas de antiguidade: peças de diferentes fabricantes sendo "genericamente" chamadas de Porcellana Mauá, empresa fundada por Hans Lorenz, A. F. Staudacher, Eugen Heim e Hedwig Lorenz, em 1937.

A única coisa que estes fabricantes apresentam em comum é terem operado na cidade de Mauá, em São Paulo.

A confusão é compreensível, uma vez que nas décadas de 50 e 60 a cidade de Mauá foi considerada a capital nacional da porcelana, devido à qualidade dos produtos das indústrias locais.

E de todas as fábricas, a que ficou mais notória foi justamente a Porcellana Mauá, considerada a pioneira do ramo em porcelana fina no Brasil. Fechada em 1968, hoje seu prédio se encontra infelizmente abandonado e em ruínas.
 
Porcellana Mauá, Mauá, SP. Típica louça canelada dos anos 1940. Coleção do autor.
  Cerâmica Mauá, Mauá, SP. Travessa para rocambole. Exemplo da típica decoração com carimbos, pintura à mão com pincel e esponjado desta fábrica. Coleção do autor.

Se as pessoas que lidam com estes artigos dedicassem alguns minutos a mais estudando as peças que possuem, perceberiam que não só o design das marcas é muito diferente, como na maioria destas o texto impresso deixa claro qual a fábrica em questão.

Vejamos alguns exemplos:

Marca da Fábrica de Louças de Pó de Pedra Paulista. Funcionou de 1923 até 1965. Muito confundida com a Porcellana Mauá, por apresentar em sua marca a palavra MAUÁ grafada em destaque. Entretanto, observe na faixa inferior a abreviação da razão social da empresa: Manetti, Pedotti & Cia Ltda. A Sigla "SPR" abaixo do sol significa "São Paulo Railway", e indica que a produção desta fábrica era escoada através desta cia. Ferroviária.
Outra marca corriqueiramente atribuída à Porcellana Mauá, mas que pertenceu à mesma empresa acima, a "Paulista". Esta fábrica passou, entre 1926 e 1943, por transformações na composição societária, o que levou, além de mudanças de nomenclatura e status jurídico, ao redesenho da marca. Depois de 1943, passou a se chamar "Companhia Cerâmica Mauá". Observe a locomotiva, também uma alusão à "baroneza", primeira locomotiva a circular no Brasil, na estrada de ferro construída pelo Barão de Mauá.
Marca da Cerâmica Miranda Coelho Ltda, fundada em 1914 como Fábrica de Louça Viúva Grande e Filhos, nome que mais tarde foi mudado para João Jorge Figueredo e posteriormente para Luso-Brasileira. Anos depois, entre as décadas de 1950 e 1960, a denominação foi alterada definitivamente para Miranda Coelho. Não se sabe quando ela fechou, apenas que a partir de 1986, o local da fábrica passou a abrigar o Sesi do Jardim Zaíra (foto gentilmente cedida por Maria Bernadete da Silva, de São Paulo).
Marca usada pela verdadeira Porcellana Mauá até o final de suas atividades (1968). Houve apenas variações na forma de desenhar o "P" acima do "M", bem como o espaçamento e altura das letras da palavra "PORCELLANA". Em marcas da década de 1960, pode-se encontrar também a expressão "MADE IN BRAZIL".

A mesma confusão acontece com diversas fábricas da cidade de São Caetano do Sul, em São Paulo: atribui-se o nome genérico de "São Caetano" para as peças fabricadas por todas elas, como se fossem da mesma fábrica.

O mais curioso é que jamais houve uma fábrica de louça doméstica ou porcelana decorativa chamada São Caetano. Com o nome da cidade como marca fantasia ou razão social houve apenas uma grande indústria cerâmica de tijolos, telhas, pisos e azulejos, a Cerâmica São Caetano.

Desta vez, a confusão é feita com a fábrica de louça e faiança das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, fundada em 1926. Na década de 1940, ela ocupava uma área de 20.000 m2 e empregava mais de mil operários, com uma produção de 45 mil peças por ano. Por conta disto, tornou-se a mais famosa da cidade.

A marca desta fábrica, também conhecida como "Louças Cláudia", apresenta um brasão onde as letras I.R.F.M. do monograma impresso estão normalmente pouco legíveis, sobrando então como única referência o nome da cidade, grafado abaixo do mesmo. Daí conclui-se o motivo das peças fabricadas pela Matarazzo serem conhecidas como "São Caetano". E por ser a mais notória, leva a reboque todas as demais.
 
Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, São Caetano do Sul, SP. A decoração das peças Matarazzo eram escolhidas pessoalmente pela Condessa Mariângela, de inspiração inglesa. Coleção do autor.

Marca comumente encontrada em peças das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, fundada em 1926. É Realmente difícil entender que no meio do brasão há as letras I R F M, ainda mais porque geralmente estas estão apagadas.
Marca da Fábrica de Louças Adelinas, fundada em 1929 pelo português Manoel de Barros Loureiro. O nome da fábrica foi dado em homenagem à sua esposa. A indústria prosperou tanto, que nos anos 30 já exportava para a Argentina. Tal era a adoração que Manoel tinha por sua fábrica, que mandou fazer um logotipo com uma coroa imperial. Ativa (pelo menos) até meados da década de 1950.
Marca da Manufatura Brasileira de Louças S/A. Fundação e período de funcionamento desconhecidos. Observe como esta marca é quase idêntica à anterior!
A Porcelana São Paulo foi fundada em 1940, em São Caetano do Sul, SP, pelos irmãos Teixeira, oriundos da região da Vista Alegre em Portugal, depois de terem trabalho no Rio de Janeiro, auxiliando na implantação da primeira fábrica de louça de mesa da então capital do país.
legenda: para conhecer as convenções adotadas neste site para datação e identificação de marcas, e do tipo de produto de cada fábrica, consulte esta página, ou posicione o apontador do mouse sobre as letras dentro dos círculos ou quadrados, que a explicação aparecerá.

ATENÇÃO: Este site é o resultado de uma pesquisa pessoal sobre a história da indústria de louça no Brasil, não sou fabricante nem comerciante de porcelana, não tenho ligação ou contatos com nenhuma das marcas apresentadas, ou com qualquer outra indústria cerâmica.

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