Foi quando, para meu espanto, eu a ouvi contar que as peças da Real, como aquela que eu estava vendo (que para ela era dos anos 1940, já havia aí um engano), “passavam apenas pela primeira queima (biscuit) na fábrica, eram decoradas com os decalques, e seguiam de navio para a Alemanha, para sofrer glasura (vitrificação) e douração”, pois “o Brasil não possuía forno de alta temperatura adequado para a produção de porcelana fina até depois da Segunda Guerra Mundial”.
Ou seja, até mesmo no caso de produtos genuinamente nacionais, é preciso de alguma forma agregar um “selo de valor estrangeiro”, pois se for apenas brasileiro, não é bom suficiente.
Acontece que o Brasil possui fornos para queima e vitrificação de porcelana em escala industrial pelo menos desde a década de 1920, e em menor escala já na década de 1900, pois segundo Edilno Brancante, em seu livro “O Brasil e a Cerâmica Antiga”, de 1981, há registros de louça de mesa de porcelana fabricada pela Cerâmica Nacional, de Caeté (MG), entre os anos de 1903 e 1921, que abastecia o mercado de Minas Gerais. Esta fábrica foi fundada por João Pinheiro da Silva em 13/07/1893. |
Marcas de João Manso Pereira (Rio de Janeiro, RJ) de 1793, catalogadas em um guia francês, o que comprova seu sucesso no fabrico de porcelana e biscuit já no século 18 |
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E já no final do século XVIII, entre 1790 e 1797, houve no Rio de Janeiro a fabricação de jogos de porcelana dura e camafeus de biscuit em estilo Wedgwood, por João Manso Pereira, havendo inclusive registro de suas marcas de 1793 usadas no Brasil e em Lisboa no “Guide de l’Amateur de Porcelaines et de Fayences”, de E. Zimmerman, já na 13ª edição em 1910.
Além disso, todo o processo produtivo da Porcelana Real era realizado no Brasil, desde a extração e preparo das matérias primas, moldagem das peças, até a decoração, douração e vitrificação.
Seus produtos eram de altíssima qualidade, e além de abastecer o mercado brasileiro, exportava para a Dinamarca, Noruega, Finlândia, Venezuela e África do Sul, e fornecia a louça oficial das Embaixadas do Brasil, da Disneylândia, da Prefeitura de Nova Iorque e da Marinha Norte-Americana, segundo o artigo “Memórias da Cidade”, de W. Puntschart, em publicação de 2004 do Centro de Referência da Memória e História de Mauá.
Constantemente eu vejo em feiras, lojas, e sites de leilão peças de fabricação nacional ganharem “cidadania” estrangeira. Acredito que a principal razão destes erros seja mesmo a desinformação (pois quase nunca há a preocupação em se pesquisar e estudar mais sobre o que se está lidando) e distração, pois na maioria das vezes a dica da nacionalidade está na própria marca gravada na peça.
Vejamos agora alguns dos erros mais comuns de “troca de nacionalidade” de marcas genuinamente brasileiras: |
Este prato não é japonês, como comumente é alegado, mas sim da Porcellana Mauá, de Mauá, SP, com decoração executada por terceiros. |
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